A Cultura em Catarse

por Bosco Maciel

Bosco Maciel

Andando pelo centro da cidade, encontrei Zé de Dalina, um antigo amigo meu. Um desses caras que lutam por uma ‘Cultura’ que reflita a vontade do ‘Artista’, e, responda aos puros anseios do povo.

Nos cumprimentamos, e ele já foi dizendo:

“Rapaz, eu tenho umas coisas pra falar…”.

E começou a despejar …

“Tu sabes a diferença entre ‘Cultura popular’ e ‘Cultura de massa’”?

Não deu tempo nem de preparar a resposta, e ele já arrematou:

“A ‘Cultura popular’ é a Cultura que nasce do povo expressando a alma de cada um”.

“A ‘Cultura de massa’  é a cultura que é imposta ao povo, por interesses de poder”.

E, mandou mais uma:

“Tu sabes o que é Identidade cultural”?

E ele mesmo respondeu:

“’Identidade cultural’ é a propriedade do cidadão, repleta de ‘ valores culturais’ que enaltecem os sons, as cores, os cheiros, os sabores, e os costumes de sua terra. Leon Tolstói já expressava este princípio quando disse: ‘Só seremos universais se conhecermos e amarmos nossa aldeia’”.

E, seguiu em frente:

“E, são os ‘Artistas’ fazendo arte com talento e sensibilidade, os responsáveis por estimular o povo a produzir Cultura. E, um povo que produz sua própria Cultura, é um povo com ‘Identidade cultural’”.

E, com eloqüência, e gestos visivelmente acentuados, prosseguiu:

“Se, como vimos, é tão fundamental a ação dos Artistas como Agentes culturais, faz-se necessário que os mesmos disponham de um cenário favorável à execução de seus papéis. E, porísso, cabem algumas considerações. Por exemplo”:

“É preciso que os Artistas atuem (cada vez mais) coletivamente cobrando ações do Poder público em favor da Cultura, assim como, os homens públicos entendam a importância da Cultura para a formação de uma sociedade.  Se estas questões não forem minimamente resolvidas, seguiremos tendo; de um lado da ponte,  ‘Fazedores de cultura’ com pastas de ‘projetos culturais’ embaixo do braço. Do outro lado da ponte, Administradores públicos sentados em cima de um ‘cofre’ com uma folha de papel na mão onde se lê: ‘Mil maneiras de dificultar o acesso do ‘dinheiro público’ aos ‘Fazedores de cultura’’. E esta ponte precisa ser transposta, pois os Agentes culturais precisam do dinheiro público, a eles destinados por lei, para fazerem cultura.”.

“Percebo também um descompasso no diálogo entre a Classe cultural e a Classe Empresarial. Nesta relação os Agentes culturais não tem acesso aos Empresários. E, nossa cidade dispõe de um Parque industrial e de um Comércio, dos maiores do Brasil. No entanto, toda essa riqueza, passa distante da realidade cultural. Talvêz, pelo desejo capitalista da obtenção de lucro imediato. Quando esse lucro pode vir, não de projetos culturais, mas dos cidadão cultos renascidos da execução desses mesmos projetos. Basta que para isso os empresários abram suas portas para os Agentes culturais com oficinas culturais, shows musicais, aulas de música, teatro, … nas Lojas comerciais, nos hotéis, nas fábricas, …”

Agora Zé de Dalina entrava nos finalmente…

A cultura em nossa cidade (*)

“Diante das dificuldades acima expostas, de mais outras aqui não levantadas, e, da necessidade de se vislumbrarem novas propostas, faz-se necessário que os Artistas se organizem para através de discussão ampla, construírem suas legítimas reinvidicações. É com organizações consistentes, que as idéias se materializam, abrindo janelas para projetos sólidos e coesos. São nos Debates, Encontros, Fóruns, que os problemas são discutidos. E, quanto mais plurais os Encontros, mais representativos são os resultados. Sempre com a consciência de que estes eventos são passos iniciais e preparatórios no caminho que conduz à valorização da ‘Arte‘ e da ‘Cultura’ no Brasil”.

Ele, já se preparando para sair, voltou-se pra min, e disse:

“Quando cada um se mostra como parte da história, o todo se traduz em reserva de imensa sabedoria”.

E, sumiu em meio à multidão…

Eu fiquei ali parado, pensando em tudo que Zé de Dalina me falou. E, deduzí que a condução de uma ‘política cultural’ pelo poder público, deve refletir a vontade dos que executam as ações culturais. Concluindo que, o contrário disso torna-se improdutivo e conflitante. Foi quando me veio à mente uma frase do Poeta Castelo Hanssen: ‘O palhaço não pode ser o dono do circo porque ele entende de arte, não entende de dinheiro’. Eu, ainda extasiado com a fala de Zé de Dalina, imaginei o que ele (há pouco falou bastante sobre Cultura) talvêz dissesse como réplica: ‘O palhaço não. Mas o Bilheteiro sim pode ser o dono do circo, pois ele não tem a habilidade do trapezista, mas sabe o que o circo precisa para continuarem os espetáculos’.

Bosco Maciel – Poeta, Folclorista, Cantador, Produtor cultural, Criador da Casa dos cordéis, Membro da AGL – Academia Guarulhense de Letras

(*) Desenho da artista plástica Karin Rosenbaum

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