Encontro Livre dos Artistas de Guarulhos

por Edson Frank

Uma reflexão oportuna…

As minhas atividades artísticas, tanto como músico, fotógrafo ou em artes gráficas, sempre estiveram como espaço de atuação à cidade de São Paulo, da qual eu sou natural. Mesmo depois de fixar residência em Guarulhos no final dos anos 70, me mantive ligado a minha cidade natal. Em meados dos anos 80 conheci o violonista Arnaldo Freire, com quem estudei por algum tempo, e através dele me envolvi com a comunidade artística guarulhense.

Encontro Livre dos Artistas de Guarulhos

Esta cidade sempre foi carente de infraestrutura para o desenvolvimento da cultura local.  Equipamentos precários, falta de incentivo e o mais importante, nunca houve aqui uma política cultural promovida pelo poder público. São anos e anos de descaso, desrespeito e incapacidade dos que tiveram para si a responsabilidade de fomentar a cultura local.

Faço aqui uma ressalva ao período do governo Elói Pietá, que apesar de não ter uma política cultural definida, preocupou-se em construir alguns equipamentos, além de promover uma série de ações que deram “outra cara” a cultura da cidade, um salto de 1000% em relação aos seus antecessores, mas ainda longe das nossas reais necessidades e muito menos a altura da segunda maior cidade do nosso estado. Isso por consequência gerou a esperança de dias melhores aos artistas locais, pois se vislumbrava uma possível evolução nos anos seguintes, afinal o processo havia iniciado e ninguém imaginaria um retrocesso.

Com a eleição do atual prefeito toda a esperança e anseios se tornaram um castelo de areia que ruiu na primeira onda. O atual secretário de cultura, escolhido por motivos políticos e não de competência, faz uma administração que podemos classificar de no mínimo desastrosa, e por motivos outros ou como já disse certo político de nossa história, ”forças ocultas” o mentem no cargo apesar dos claros sinais de sua péssima e destrambelhada administração.

Neste cenário surgiu uma pequena luz, que sinalizava para um movimento dos artistas locais, buscando uma união para fazer frente a essa situação. Pois bem, para quem é militante da cultura local há quase trinta anos, com experiência de muitas tentativas frustradas de organização dos artistas locais, por falta de visão política, compreensão do processo e por egos extremamente inflados e expostos, acreditei em princípio, que essa seria mais uma tentativa que não daria em nada.

O primeiro Encontro Livre dos Artistas de Guarulhos, reavivou minhas esperanças de que finalmente se concretizaria uma união por interesses comuns a todas as linguagens e que até poderíamos com alguma ajuda, desenvolver uma proposta de política pública de cultura para contrapor aos desmandos da administração atual. Como não sei fazer as coisas pela metade, mais uma vez me joguei de cabeça nesta nova possibilidade.

Uma das coisas que me fizeram pensar desta forma foi o grande número de caras novas presentes, a maioria jovens, o que me levou a pensar, que bom, sangue novo, pois a impetuosidade característica dos jovens estimularia, daria novas forças aos mais velhos, cansados e descrentes por muitas frustrações.

No segundo encontro, percebi que apesar desta nova situação, as coisas não seriam fáceis, pois a falta de experiência, o baixo nível de compreensão da cidadania, o preconceito político, e a ignorância sobre o processo de funcionamento dos poderes constituídos, e a necessidade de autoafirmação de alguns, criavam fortes barreiras rumo a uma organização prática, com fundamentos claros e objetivos, que nos conduzissem a união, para se construir algo benéfico a todos.

Também ficou claro o trabalho imenso que teríamos, um desafio que muitos não perceberam, e por não se darem conta disso, se preocuparam e defender suas crenças políticas e filosóficas, ao invés de focar em viabilizar questões que pudessem contribuir para reverter à atual situação da maioria.

No terceiro encontro os sinais de desagregação estavam mais presentes, posições e comportamentos que levaram movimentos anteriores ao esvaziamento e extinção, estavam mais fortes. Em alguns momentos minha frustração era tão grande com o que estava presenciando que tive vontade de jogar a toalha. Era claro o que se apresentava. Como num filme visto várias vezes eu já conhecia o final. Lamentável!

Lembrando de uma entrevista que fiz com o cantor jamaicano Jimi Clif nos anos 80, em que ele indagado sobre suas posições aparentemente não tão democráticas, responde dando sua visão sobre o que é democracia: Demo= Demônio, Cracia= Regra, portanto democracia são as regras do demônio. Lógico que não vejo desta forma, mas que é difícil não há dúvidas.

Muitos artistas com quem tenho conversado e que se negaram a participar deste movimento, apenas por não acreditarem em sua concretização, me avisaram destas situações, tenho que dar a mão a palmatória. Mas por enquanto não vou desistir, acho que o desenvolvimento cultural de nossa cidade é mais importante, e como cidadão deste município tenho que fazer valer meus direitos, exigir das “autoridades” que compram suas promessas de campanha e obrigações como nossos representantes.

E não me venham com argumentos tipo: estamos dando ao povo o que ele quer, por que isso não passa de mera desculpa para justificar suas ações desastrosas e falta de sensibilidade, isso pra ficarmos na superfície.

Precisamos de uma política pública de cultura que fomente a produção local, mas sem paternalismos. Ações culturais que oriente a infância e a juventude, que desperte em muitos seus “dons” para a arte, que estimule a compreensão e o questionamento, afaste principalmente os jovens da periferia da criminalidade, dando lhes condições de exporem seus sentimentos e anseios através de suas linguagens artísticas, e provocando o intercambio entre as várias regiões da cidade, buscando identificar nossa real face cultural, ou nossas muitas faces.

Como cidadão e artista, quero para minha cidade o melhor. Não quero ver uma juventude sem conteúdo, sem possibilidade de questionamento, que tem como única forma de divertimento, encher a cara nos imenso mar de bares em que se transformou Guarulhos, ouvindo música de péssima qualidade produzida pela indústria do entretenimento cujo único objetivo é o lucro.

Como já disse Zé Ramalho, “Vida de Gado, Povo Marcado, Povo Feliz”, é isso que acontece quando nossos representantes eleitos nos viram as costas…

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